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Foram muitas as pessoas que passaram pela minha vida. Muitas também foram as que deixaram sua marca, tenha sido ela boa, ou ruim — ou ambas. Não costumo sentir remorso ao cortar laços quando enxergo neles algum tipo de nó. Incomoda-me o fato de me sentir presa a alguém. Incomoda-me saber que faço o outro sentir-se acorrentado a mim. Relações são escolhas, são trocas voluntárias de afeições, são uma construção consensual. Mais do que tudo, são demonstrações cotidianas e espontâneas da importância que o outro exerce em quem você é e em quem pretende ser. Quando não mais existe a genuína vontade de provocar crescimento, ou quando se é indiferente ao motivo daquele largo sorriso, perde-se o propósito. Você caminha em círculos, tropeçando sempre naquele mesmo pedregulho. Estupidamente tenta não ver o que é que o torna tão errante. É difícil perceber. Desata o nó. Você só reconhece que já passou por aquele trecho apenas quando não existe mais onde tropeçar.

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Todo dia pode ser o último dia, ou a última vez.

(Source: s01)

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De repente, você vê que aprendeu várias coisas. Mas não foi de repente, foi aos poucos. “De repente” não quer dizer que você aprendeu rápido. Quer dizer que você não percebe que está aprendendo, até que aprende. Você olha pra suas fotos antigas e não consegue se enxergar. Você lembra de frases ditas e atitudes tomadas e as trata como se fossem de um outro alguém. Você aprende que não há amor que não acabe, doença que não se cure, não há estrada sem fim. O caminho, sim, é sem fim. Basta torcer para estar percorrendo o caminho certo. Basta perceber que o seu caminho é errado e esperar pelo próximo retorno. É uma estrada de duas mãos. De repente, você se sente cansado de tanto aprender quando, na verdade, você está é cansado de estar rodeando de gente que não aprendeu porra nenhuma. Não te preocupa. Todos aprendem, cada um a seu tempo. O problema é que alguns demoram tanto que acabam morrendo antes da primeira aula.

Talvez você tenha aprendido mais que eu, ou até menos, ou então aprendido coisas diferentes, ou matado todas as tuas aulas mais importantes. Não sei mesmo, mas minha única certeza é que eu não concordo com uma vírgula do que você diz.

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Eu memorizei cada canto do seu quarto. É claro que memorizei, era uma garota apaixonada. Um colchão jogado ao chão, à espera de um box que não tinha a menor previsão de chegada. E a maneira como nos jogávamos nele, como se dividi-lo fosse tudo o que precisávamos para continuar sorrindo. O encaixe perfeito, uma boa noite de sono e a imensa dificuldade de nos desvencilharmos daqueles lençóis negros na manhã seguinte. A luz que teimava em incidir todas as manhãs pelas frestas da cortina, antes do horário de acordamos. O chão gelado e o seu casaco cinza de capuz vermelho, que eu costumava vestir em noites frias, acompanhado de um belo par de meias com sola emborrachada. Lembro-me de por vezes te acordar com beijos e da dificuldade que você tinha em assimilar que não estava sonhando, expressando um alívio contente. Recordo-me de te observar sob a luz indireta e de perder uns minutos te amando mais um pouquinho ao constatar teus olhos entrando nos meus. Lembro também das paredes, repletas de fotos, lugares onde estivemos juntos e outros em que pretendíamos estar, desenhos e bilhetes carinhosos amontoavam-se dando mais e mais volume ao painel das nossas vidas.

Evidências de um amor zeloso e cheio de pequenas surpresas. Enquanto você saía, eu me pegava fitando-o por horas a fio e criando soluções infalíveis para cada espaço em branco com o qual pudesse me deparar. Queria encher as nossas vidas de um pouco mais de ‘nós’, porque, ao fim do dia, era só o que fazia sentido. Confiei seu quarto à memória. Disse para mim mesma que era para as noites em que abríssemos duas garrafas de vinho e apagássemos todas as luzes, para que mesmo assim eu soubesse por onde te guiar. Mas na verdade era para que, mais tarde, no vazio da minha própria cama, eu pudesse fechar os olhos e me imaginar ao seu lado na sonora trincheira que era a sua vida.

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O silêncio me assusta porque diz a verdade.

(Source: s01)

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Nós. Fomos um laço amor, enquanto eu aqui estava crente que éramos um nó. Parecia tudo muito forte, tudo muito intenso, mas só parecia. Tanto parecia que entrei de cabeça nesse mar profundo e escuro que foi o nosso amor. Atirei-me mar adentro sem medo, leve como folha. Por quê? Acreditei que nós éramos um nó. Mas não um nó qualquer, aquele nó de várias voltas que os escoteiros dão, aquele que é quase impossível desatar, me entende? Passei a crer que eu poderia me jogar sem medo de nada, pois o nosso nó era forte demais para ser desatado. E foi isso que fiz, me coloquei, joguei, entrei, incorporei, adentrei, no nosso mar de amor. Nó forte é nó que não desata em ventania, nó que aguenta chuva e sol, e assim pensei, somos como um nó. Ou melhor, assim pensava, até a primeira tempestade forte chegar. Parecia tudo muito calmo, tudo muito leve, tudo muito doce… Parecia. Estava tão crente em nós e em nosso nó que não me preocupei mais com nada que pudesse nos acontecer, afinal, nós éramos um nó, um forte nó — na minha cabeça — é claro. Cheguei a pensar que estávamos atados, completamente atados. Até que uma onda enorme, fria e agressiva passa por nós. Você me soltara amor, nó que é nó não se solta. Pensei que fossemos… Enganei-me, as aparências enganam mesmo, não? Quando pude ver, nós estávamos desatados, ou melhor, estávamos separados. Não existia mais um nó, um nós, só existia eu, e existia você, só. Nós não fomos um nó amor, nós fomos um laço. Nó segura, nó aguenta, nó puxa, nó amarra, mas laço, ah amor, laço não segura nada, não amarra nada, muito menos aguenta, laço só enfeita, e depois do presente aberto, o laço escapa e perde a serventia. 

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Um dia alguém vai se apaixonar pelo seu sorriso torto. Alguém vai precisar ouvir a sua voz antes de dormir e querer o seu bom dia para começar bem. Um dia alguém irá querer carregar as suas dores consigo e trazer um pouco de alívio. Esse alguém também irá aceitar as suas falhas, perdoar os seus maus entendidos e respeitar os seus silêncios mesmo que não entenda. Alguém com quem você poderá até ter brigas exageradas, mas nunca irá embora. Alguém cuja a palma da mão, você terá decorado cada detalhe e cravado a marca dos seus dedos entrelaçados. Um alguém fará você chorar e vice-versa, porém, terá um abraço que acolherá todos os erros. Alguém que talvez te odeie um dia e ame no outro — ou no mesmo — mas que invada diariamente o seu corpo de sensações únicas. Um alguém que te leva junto toda vez que parte, e te faz oscilar entre a vida e a morte em segundos de amor. Um alguém cuja alma te pertence desde sempre. Um dia um encontro marcará o que somente os olhos registrarão. Um dia, inesperadamente, alguém anula o resto do mundo para você. E você descobrirá, rapidamente, que esse alguém não poderia ser de mais ninguém, e nem você.

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Somos a acumulação das lágrimas que derramávamos no quarto, à noite, quando todos iam dormir em paz, e ali, debaixo dos cobertores, que mais esfriavam-nos a alma do que alentava, gritávamos amordaçados pela força que tínhamos nos pulsos. Somos a acumulação dos abraços não concretizados, aqueles que foram presságio e fim, na mesma linha tênue e foram jogados em nossa face como se fossem esmolas e o pior: suplicávamos por eles como quem suplica por calor em plena Antártida. Somos a acumulação de dores que acabaram sendo infindas dentro de nós e que nem mesmo os sorrisos disfarçavam o ócio, a ruptura, o degelo que havia no peito; acumularam-se apenas a brandura que é chorar com os olhos brilhando porque olhamos o céu. Somos o alcance, o inexistente, o intenso, o vago. Fomos deixados de lado por aqueles que dormiam e morriam em paz. 

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Eu queria te contar que agora não dói mais. Só que agora não importa tanto o que você vai pensar sobre isso. Queria que você soubesse que já vi nossos filmes milhares de vezes e nem chorei. Ok, chorei. Mas pelo filme, e não por você. Queria que você soubesse que tirei a poeira das nossas músicas, e que as ouço quase todos os dias. Porque elas me faziam mais falta do que você fez. Os nossos lugares não são mais nossos. Eu já voltei lá com outras pessoas, e escrevi lá outras histórias… Eu estou aprendendo a tocar violão. E a primeira música que toquei foi aquela música que era uma espécie de hino pra nós dois. Ela é tão linda… E sim, ela continua sendo muito nossa e lembrando demais você. Mas ainda sim, não dói. Você não pergunta essas coisas, mas sei que gostaria de saber. Porque te conheço. E isso não mudou. Do mesmo jeito que adivinhei as coisas ruins que você aprontaria, eu sei as coisas boas que ficaram aí em você e te fazem lembrar de mim. Porque a vida segue. Mas o que foi bonito fica com toda a força. Mesmo que a gente tente apagar com outras coisas bonitas ou leves, certos momentos nem o tempo apaga. E a gente lembra. E já não dói mais. Mas dá saudade. Uma saudade que faz os olhos brilharem por alguns segundos e um sorriso escapar volta e meia, quando a cabeça insiste em trazer a tona, o que o coração vive tentando deixar pra trás.

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Pensei que me tornaria cética, que teria preguiça, achei que fosse voltar a me fechar. Eu errei. De páginas rasuradas, escritas com um milhão de cores, sou um livro aberto. Não sei arrancar uma só folha, o que não significa que algum dia eu volte a olhar o que me retrocede. Sinto como se existissem trechos escritos em algum idioma arcaico que ninguém mais sabe ler. Tive receio que ninguém realmente quisesse sabê-lo. Errei de novo.

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Hoje eu acordei numa casa diferente, num quarto diferente, sem nenhuma muleta, sem nenhuma maquiagem, meus amigos estão ocupados. Meus pais não podem sofrer por mim. Hoje eu acordei sem nada no estômago, sem nada no coração, sem ter para onde correr, sem colo, sem peito, sem ter onde encostar, sem ter quem culpar. Hoje eu acordei sem ter quem amar, mas aí eu olhei no espelho e vi, pela primeira vez na vida, a única pessoa que pode realmente me fazer feliz.

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Lá está ela, mais uma vez. Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. Sabe que tudo acontece como um jogo. Se é de azar ou de sorte, não dá pra prever. Ou melhor, até se pode prever, mas ela dispensa. Acredito que essa moça, no fundo, gosta dessas coisas. De se apaixonar, de se jogar num rio onde ela não sabe se consegue nadar. Ela não desiste e leva bóias. E se ela se afogar, se recupera. 

Estranho é que ela já apanhou demais da vida. Essa moça tem relacionamentos estranhos, acho que ela está condicionada a ser uma pessoa substituta. E quem não é? A gente sempre acha que é especial na vida de alguém, mas o que te garante que você não está somente servindo pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas? A moça… Ela muito amou, ama, amará, e muito se machuca também. Porque amar também é isso, não? Dar o seu melhor pra curar outra pessoa de todos os golpes, até que ela fique bem e te deixe pra trás, fraco e sangrando. Daí você espera por alguém que venha te curar. Às vezes esse alguém aparece, outras vezes, não.

E pra ela? Por quem ela espera? E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará. A moça — que não era Capitu, mas também tem olhos de ressaca — levanta e segue em frente. Não por ser forte, e sim pelo contrário… Por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo.

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E eu chorei um oceano inteiro essa noite. Eu precisava esvaziar.

 Caio Fernando Abreu.

(Source: s01)